Não acho que a vida seja um grande jogo
Ou um grande teatro
Ou um grande palco
Ou qualquer uma dessas baboseiras.
Pra isso existe a ficção.
A vida pra mim é outra coisa.
Ver a morte de perto e com tanta frequência me faz sentir a vida como a coisa mais crua que existe entre as outras.
A mágica existe, a poesia existe, as cores, e tudo o mais que pode ser colocado como acessório à vida para torná-la mais adornada. E isso eu acho bom e necessário.
Mas essas coisas são a parte, não são a vida em si, pra mim.
E pra mim, não entender o caráter cru da vida e a importância dele tira o sentido do uso do além-cru para adornar a vida. Fica incompleto, fica imaturo, falta.
Assim como a morte não tem nada de poético, nada de glorioso. Não tem glamour, não tem redenção, não tem nada dessas coisas literárias e idealizadas. A morte é fria, feia e crua. Pra mim, sua beleza está justamente aí.
Acho importante a compreensão disso. O sangue, a dor, o sofrimento, o desespero e a loucura estão aí. Carregam-se na morte, coladas na vida.
Não é amargura. Não é achar que a alegria, a beleza, a leveza não existam e não sejam importantes. Muito pelo contrário.
É reconhecer o lugar e a importância das coisas.
Simbólica ou concretamente, "Almost dying changes nothing. Dying changes everything".
A Persistência do Pulso
quarta-feira, 19 de março de 2014
domingo, 16 de março de 2014
Ainda sem título
Não é a ida
É a surpresa
Não é perder alguém, próximo ou não
que dói
desespera
inquieta
revolta
é a vida nos colocando no nosso lugar
nos mostrando que a gente no fim das contas não controla porra nenhuma
e que a qualquer momento....
...
a Morte tem seu próprio cronograma
nenhum chefe ditando seus horários...
profissional liberal e autônoma
gosta de esconder seus planos dos seus futuros clientes
para desespero dos ainda futuros
e alívio dos que se tornam presentes...
é isso que dói.
É a surpresa
Não é perder alguém, próximo ou não
que dói
desespera
inquieta
revolta
é a vida nos colocando no nosso lugar
nos mostrando que a gente no fim das contas não controla porra nenhuma
e que a qualquer momento....
...
a Morte tem seu próprio cronograma
nenhum chefe ditando seus horários...
profissional liberal e autônoma
gosta de esconder seus planos dos seus futuros clientes
para desespero dos ainda futuros
e alívio dos que se tornam presentes...
é isso que dói.
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Silêncios cheios
Eu comecei esse blog porque eu precisava de uma válvula de escape. Comecei o internato de medicina e o trabalho em hospital anda me trazendo muita coisa, movimentando muita coisa. Muita coisa sem nome, algumas até meio sem forma.
Até agora, na verdade, isso aqui se tornou um espaço para falar sobre morte. Para eu tentar dar nome a coisas que eu vivi e senti nos meus encontros com essa tal Dona Morte e das coisas que vivemos juntos durante e depois dela levar pessoas com quem tive contato no trabalho com os pacientes, familiares e profissionais da saúde.
Nesse último fim de semana eu fiz minha primeira massagem cardíaca. O procedimento feito de acordo com o protocolo, as massagens alternadas a cada 2min e à cadência de "Staying Alive" do Bee Gees ecoando na minha cabeça para me manter concentrado no ritmo das contrações.
Mas perdemos o paciente. Eu, a médica, a interna do 6º ano, o pessoal da equipe de enfermagem, a esposa, o filho e a nora, que estiveram presentes no dia em que eu vi pela primeira vez a luz dos olhos de alguém ir embora.
Ter tido esse desvirginamento pela vida tá fazendo ecoar milhões de coisas na minha cabeça. Muitas delas ainda sem nome...
Comentei, com mais ênfase nas minhas emoções, sobre o ocorrido com algumas pessoas próximas. Várias delas disseram não saber o que dizer, algumas me colocavam isso seguido de um pedido de desculpas pelo silêncio. E todas as vezes que alguém me dizia "não sei o que te dizer", me vinha uma satisfação imensa e uma sensação plena de acolhimento e presença de quem me ouvia.
Logo após a médica dizer "Deu. Que horas são? Marca aí: quinze para as cinco", ela foi até o corredor notificar a esposa do paciente, que aguardava aflita durante os 45min em que tentávamos reanimá-lo. Recebida a notícia, a esposa começou a chorar. A médica teve que correr atrás da papelada do atestado de óbito e eu fui tentar dar algum apoio à senhora. Fiz tudo o que o protocolo manda: coloquei para ela meus pêsames, pus a mão em seu ombro num gesto de presença e apoio, busquei um copo d'água e perguntei se ela não preferia sentar. Ela aceitou, eu a entreguei a água e ela começou a falar do marido. Eu comentava uma coisa ou outra daquilo que ela dizia sobre o falecido. Mas na imensa maioria das vezes, eu não fazia ideia do que dizer. Algumas frases prontas pipocavam na minha cabeça: "Fizemos de tudo", "Ele lutou bravamente", "Ele está agora nas mãos de Deus" [e eu nem sou tão deísta assim, mas ela carregava uma medalinha de Nossa Senhora junto ao pescoço, sabia que para ela a frase faria sentido, muito mais que a mim, se a ouvisse]. Mas não disse nenhuma delas. Achei que seria besteira dizer qualquer coisa. Porque eram frases prontas e como tal eu senti que elas me vieram com um propósito: tentar tapar o buraco do vazio que me veio ao pensar "eu não sei o que te dizer". Eu de fato não sabia, não soube. Acho que se tivesse revivido o momento, continuaria não sabendo.
A minha surpresa foi perceber, logo após a enxurrada de frases prontas internamente silenciadas e a constatação de eu de fato não saber o que dizer, que eu fui tomado por um sentimento profundo de auto-satisfação e de estar de acordo com a situação: Não tinha nada a se dizer naquele momento e não saber o que dizer era a coisa mais apropriada que eu poderia sentir então. A vivência da situação era de uma intensidade tal que palavra nenhuma serviria ali. Nada que fosse verbal vindo de mim faria muito mais sentido ali. Eu estava lá. Olhava atentamente para ela enquanto ela falava, aproximava as mãos dela vez ou outra. Eu estava triste por ela ter perdido o marido com quem foi casada por 45 anos e triste por mim mesmo, enquanto estudante de medicina, pelo primeiro paciente que "eu perdi". As nossas tristezas, cada qual com sua intensidade e grau de importância, estavam ali presentes naquele momento, nas falas dela ou nos nossos silêncios. E era isso que importava. Se eu dissesse qualquer outra coisa naquele momento seria um crime, seria uma insensibilidade, seria de uma superficialidade ofensiva para o momento, para ela e para a memória de seu marido.
Quando as pessoas para quem eu contei do ocorrido me disseram não saber o que me dizer, eu as senti realmente junto de mim, realmente atentas e presentes. Eu senti que elas entenderam a gravidade e a importância do que eu estava compartilhando. Era isso que eu busquei ao contar pra elas o que eu vivi.
Eu buscava aquele silêncio e aquela presença. Uma que não podia existir sem a presença do outro naquele momento.
Eu buscava - e encontrei - uma empatia que só o silêncio compartilhado pôde traduzir.
Até agora, na verdade, isso aqui se tornou um espaço para falar sobre morte. Para eu tentar dar nome a coisas que eu vivi e senti nos meus encontros com essa tal Dona Morte e das coisas que vivemos juntos durante e depois dela levar pessoas com quem tive contato no trabalho com os pacientes, familiares e profissionais da saúde.
Nesse último fim de semana eu fiz minha primeira massagem cardíaca. O procedimento feito de acordo com o protocolo, as massagens alternadas a cada 2min e à cadência de "Staying Alive" do Bee Gees ecoando na minha cabeça para me manter concentrado no ritmo das contrações.
Mas perdemos o paciente. Eu, a médica, a interna do 6º ano, o pessoal da equipe de enfermagem, a esposa, o filho e a nora, que estiveram presentes no dia em que eu vi pela primeira vez a luz dos olhos de alguém ir embora.
Ter tido esse desvirginamento pela vida tá fazendo ecoar milhões de coisas na minha cabeça. Muitas delas ainda sem nome...
Comentei, com mais ênfase nas minhas emoções, sobre o ocorrido com algumas pessoas próximas. Várias delas disseram não saber o que dizer, algumas me colocavam isso seguido de um pedido de desculpas pelo silêncio. E todas as vezes que alguém me dizia "não sei o que te dizer", me vinha uma satisfação imensa e uma sensação plena de acolhimento e presença de quem me ouvia.
Logo após a médica dizer "Deu. Que horas são? Marca aí: quinze para as cinco", ela foi até o corredor notificar a esposa do paciente, que aguardava aflita durante os 45min em que tentávamos reanimá-lo. Recebida a notícia, a esposa começou a chorar. A médica teve que correr atrás da papelada do atestado de óbito e eu fui tentar dar algum apoio à senhora. Fiz tudo o que o protocolo manda: coloquei para ela meus pêsames, pus a mão em seu ombro num gesto de presença e apoio, busquei um copo d'água e perguntei se ela não preferia sentar. Ela aceitou, eu a entreguei a água e ela começou a falar do marido. Eu comentava uma coisa ou outra daquilo que ela dizia sobre o falecido. Mas na imensa maioria das vezes, eu não fazia ideia do que dizer. Algumas frases prontas pipocavam na minha cabeça: "Fizemos de tudo", "Ele lutou bravamente", "Ele está agora nas mãos de Deus" [e eu nem sou tão deísta assim, mas ela carregava uma medalinha de Nossa Senhora junto ao pescoço, sabia que para ela a frase faria sentido, muito mais que a mim, se a ouvisse]. Mas não disse nenhuma delas. Achei que seria besteira dizer qualquer coisa. Porque eram frases prontas e como tal eu senti que elas me vieram com um propósito: tentar tapar o buraco do vazio que me veio ao pensar "eu não sei o que te dizer". Eu de fato não sabia, não soube. Acho que se tivesse revivido o momento, continuaria não sabendo.
A minha surpresa foi perceber, logo após a enxurrada de frases prontas internamente silenciadas e a constatação de eu de fato não saber o que dizer, que eu fui tomado por um sentimento profundo de auto-satisfação e de estar de acordo com a situação: Não tinha nada a se dizer naquele momento e não saber o que dizer era a coisa mais apropriada que eu poderia sentir então. A vivência da situação era de uma intensidade tal que palavra nenhuma serviria ali. Nada que fosse verbal vindo de mim faria muito mais sentido ali. Eu estava lá. Olhava atentamente para ela enquanto ela falava, aproximava as mãos dela vez ou outra. Eu estava triste por ela ter perdido o marido com quem foi casada por 45 anos e triste por mim mesmo, enquanto estudante de medicina, pelo primeiro paciente que "eu perdi". As nossas tristezas, cada qual com sua intensidade e grau de importância, estavam ali presentes naquele momento, nas falas dela ou nos nossos silêncios. E era isso que importava. Se eu dissesse qualquer outra coisa naquele momento seria um crime, seria uma insensibilidade, seria de uma superficialidade ofensiva para o momento, para ela e para a memória de seu marido.
Quando as pessoas para quem eu contei do ocorrido me disseram não saber o que me dizer, eu as senti realmente junto de mim, realmente atentas e presentes. Eu senti que elas entenderam a gravidade e a importância do que eu estava compartilhando. Era isso que eu busquei ao contar pra elas o que eu vivi.
Eu buscava aquele silêncio e aquela presença. Uma que não podia existir sem a presença do outro naquele momento.
Eu buscava - e encontrei - uma empatia que só o silêncio compartilhado pôde traduzir.
sábado, 22 de fevereiro de 2014
A Luz dos olhos teus
Quando cheguei, atrasado, sem saber nem mesmo o que ser, ela ainda estava lá. Era forte, quase selvagem, se debatia.
Não durou muito.
Rápido assim. Sem história, sem poesia.
Quando eu cheguei, estava lá. Parecia viva.
Já estava morta muito antes do "Deu. Que horas são? Marca aí: Quinze para as cinco."
Golpe atrás de golpe tentando mantê-la viva.
Golpe atrás de golpe tentando acreditar viva a luz já morta sem aviso prévio nem despedida.
Golpe atrás de golpe tentando manter vivo quem há muito já era cadáver...
"Staying alive, staying alive..."
Não durou muito.
Rápido assim. Sem história, sem poesia.
Quando eu cheguei, estava lá. Parecia viva.
Já estava morta muito antes do "Deu. Que horas são? Marca aí: Quinze para as cinco."
Golpe atrás de golpe tentando mantê-la viva.
Golpe atrás de golpe tentando acreditar viva a luz já morta sem aviso prévio nem despedida.
Golpe atrás de golpe tentando manter vivo quem há muito já era cadáver...
"Staying alive, staying alive..."
domingo, 2 de fevereiro de 2014
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